quinta-feira, 10 de abril de 2008

Gorongosa, 3 Junh 1973

E fz Deus as bsts fers d terra…-N Brasil,os versikls d Génesis a dskrvr o esforç d kriador p arrankar a vida d caos,q j então sabia d cor e m vnham a lembranç, tnhm apens explicitaçao vgtal. A fauna dsprecia diant d esplendr arbóreo. Aq, a clorofila deu lgar á proteína. E é 1 louvar a Deus. Bichs d tds a forms e feitios ld a ld, o hpptm entrrd ns chrks, o abutr empoleird ns glhs, o crokdl a flutuar ns lagoas, o búfalo a pstar ns clareirs, o elefnt abrigd ns rams, a serpnt enroskd ns sombrs. Asas a voar, csks a trotar, ventrs a rastjar.E td numa abundância primordial, aos bands, às mnds, aos enxams. Ilhs d carn, florsts d chfrs, nuvns d pens. E, a autentikr a obra, a vetusa assinatura d autor, figurd n juba d 1 leão deitd ao ld d compnheir, a olhr c/ majestatica sobranceria o pbr rei d criação q eu era, a exibir um ceptr d 5 bals ns mãos aterrds.
[p 27-28] [MA]

Gorongosa, 4 Junh d 1973

Caçada, só p ver km era. 5 h entrrd n capim a prokura d rsts atravs dum nariz e duns olhs natvs, e a alvjar a presa a 200m d dist. c/ carabinas d precisão. Q saudds d’uma perdiz bem mandd numa enkst d Douro, abtd d papo! Pq, veradeirmnt, a grand emoção d dia tive-a n terreir d’aldeia indign, mt verosilmnt d gerrilheirs, ond acampams.Pr mt q viv nunk esqcerei o pasm ironik d 3 mulhers aborigns, q n entendiam uma plavr d prtgues, e o olhr oblikuo d’um band d’homens sentds a rod d caçoila d fuba, enquant nos ns banqtavams. Cars estranhs, enigmatiks, ond a mnh ma consciência branca lia ódio, e tlvz espalhassm apens a instintv dsconfianç em qualqur natural pr 1 semlhant q o n é.Entr mim e aquels irmãos d espécie abria-se um abism intransponível c 500 ans d largura. Desse as volts q desse, eu era ali um inimigo. D nd valia o meu dsj sincero d dzr uma plvr d simpatia a kd 1, d lhs ouvir uma melopeia, d acarinhr as crianças q espreitvam receosas d fundo ds cubats. A fraternidd, a poesia e a trnura chgvam tarde ou cd d+.E fiquei alô d <3 apertd, smp a deitr o rb d olh a espingard, nem pessoa, nem poeta, nem coissima nnhuma. S coragem seqr p rufr num tambor q ao ld m desafiav os dds, n fosse o meu gest fzr expldir aql contd dinamit tribl.
[p 28-29] [MA]

Tete, 5 Junh 1973

EMBNDEIR

Pr + q mud a luz
D kd panorama
O teu vult persist
Em ser a img trist
D tristz afrikana

[p 30] [MA]

Cbora Bassa, 5 Junh 1973

Aq km em Vilarinh d Furna, km em Assuão, km em td a part. As forçs reunids d passad e d presnt n knsguirm dter a fúria avassldora d futur. 1 lag imnso vai dxr s/ deuses, s/ morts, s/ berç e s/ memoria milhrs d criaturs. A técnica vai fzr tábua rasa d crençs, lembrançs, cults e sentiments, e afogr n msm albfeira plnifkdora a arvor totemika, o cmterio sagrd, a plhta ntiva, o terreir fmiliar. Homns elctr-dmstks em x d homns animo-dmstks. Milhs d plsaçoes cardiaks trkds pr milhs d quilovátios.
[p 31] [MA]

Ilh d Moçmbk, 6 Junh 1973

Louvd sj Deus Nss Snhr! Até q enfm posso regrssr sossegd, c/ a viagm jstfkd em tds as mnhs exigncias d homem e d prtgues. Aq, s. Aq a pátria chgo e sobro.Aq tds os q vierm s trnscndrm, derm o mlhr d si, mrceram a acntura e a gloria. Q orglh legtm eu snt a kmprtlhr st skrtsm d raçs, d kulturs, d fe e d sntmnts! Branks, prets, pards e amarels num knvivio fratrno, os vvs a morejr ombr a ombr, os mrts a repousar ld a ld. O docel d um pulpt q lmbr 1 smbrnh chins, altars cristãos q parecm dstinds a Buda, 1 capelinh manuelin a dar guarid ao corp d 1ª bisp d Japão. Ah, génio lusiad, quand acerts! Qnd t n abstrds! Qnd t mds c/ o impssivl! Fzs d 1 bank d coral o centr geometrk d concórdia d mund!
[p 31-32] [MA]

Ilh d Moçmbk, 7 Junh 1973

N m kns d ver e d psmar. A frtleza, as igrjs, a msquit, os palácios, as mordias, as cubats indignas, a pegd d S.Frncisk Xvier, os mnmnts, as lapds, s td a noss heroicidd, santidd, fratrndd, cobiç e sabdoria ancords em plno ìndik. E td cert, td ao msm tmp insolit e ntrl, km dv ser a vid: os goes’s, os monhés, as ngrs mascrds, os indians mrkds, as kplnas e os turbnts. O prprio Camões, tão deskbd em Luanda e n Lbt, fik aki bem, d peit abert ao ar marítimo d Orient. Em x d uma ilh real, c lattd e lngtd, tnh a imprssao d surpeender um act d imgnaçao da pátria.
[p 32] [MA]

Lrnç Mrqs, 8 Junh d 1973

Penoso dialg c 1 cabçilh nacionlist. Intlgent, frio e premptorio, cd plvr q lh saia d boka parecia 1 pnhlada. E n tiv remédio sem ir aguentnd aquel racism negr q, ao contrario d brank q por aqui campei, pdia ao – priviligiar-s d 1 cert jstifkçao. Td, n optk del, tava errad n Afrik prtguesa. Cidds d gnt cercds d guetos d bichos, 1 ordm jrídica absurd implntad absrdment n1 sociedd primitv, tecniks avnçdissims ns mãos d operários troglodits, 1 capitalism dsenfread a sugar 1 economia arkaik. Prtnt, rua. Rua, quant ants, e adeus p a eternidd… Nest ponto, refilei. Nem tnt ao mar…Reforçou o anátema: p a eternidd. N tinhms + nd a dzr uns aos outrs.
E lembrei-m então d 1 episodio antg q m sucedeu n1 congress d’escritors, em S.Paulo. 1 kmrada brasileir apstrofv a colonizçao prtguesa,q desejria 1000 x’s trkd pla holndesa. E, qnd a assistência esperv d mim 1 prtesto indignado, apens comentei, prznteir: - Tava aq a pnsr n q seria o meu dsespero s m viss n trist situação d ouvir coisas assim em flmeng… Ms, inflizmnt, oiço-as em prtgues...
Ora, tb c o meu actual interlktor akntcia o msm. O homem flv a mnh língua. E dspdi-me afavelmnt, d sorriso ns lábios. Era um sorriso d’esperanç, ms n lho diss.

[p 32-34] [MA]

Lrnç Mrqs, 9 Junh d 1973

Art negr. 1º, a granel, n1 exposiçao colektiv; dps, singlarizd, n estúdio d’1 reputd pintor. E smp a msm impressão desagrdvel d pisar terren movdiç. Esklturas e pinturs raivosas, crispds, d dnts arrgnhads, gests agrssivs, esgars d pesadelo. Ond prokrava ver apens fntasiosas manifstaçoes oníricas, akbv pr dscortinar ameaçdors rvlaçoes agrssivs d n sei q traumtizd memoria ancestral. 1 odio compulsiv,impacient,indomavl, a irromper ds profundidds em cores,traçs e volums,o subconscient activ a prparar o conscient passiv p o grand combat. P a violência d uma rvoluçao q terá, km tds as rvoluçoes, a dimensão possivl. Cndicionad por 1000 fctors, apsar d expldir em plen sec XX, será tal qual a pressagiam os vidnts d escopro e do pincel: um puro massakr tribl entr negrs tribais e brnks tribais.
[p 34] [MA]

A voar p Luanda, 10 Junh 1973

A msm sensçao doutr travessia. Est Afrik tem qualuqr coisa d embrionário, d protoplasmico, d massa a lvdar. Td nela m parece inform, indciso, os rios ainda s leito, os mnts s equilíbrio, os sers aind s destino, a naturez ainda s paz. Olh, e tnh a sensçao d ver 1 imensa plcenta.
[p 35] [MA]

Luanda, 11 Junh 1973

Dspdd d Luand, 1º a visitar as igrjas d Snhr da Nzré e d Jesus, bem bonits pr sinal, erguids n tmp em q tinhms fe e faziams coisa sbonits; dps, a pasmar d desenfd ds avnids e espreitar a suspicácia ds muceqs; pr fim, a ver 1 por d sol feérico d alt d frtleza. Ao lusk fusk regrssei melncolikmnt a kasa, situad pert d camp entricheird d aviação militar. Guarits, fortins, arame farpad. E as imgs edificantes, empolgantes ou inquietnts, recolhids ao larg d meu passeio, fundem-s insensivlmnt n grnd img castrnse q tnh agr diant ds olhs. 1 pret q ao lad guard 1 casa em construção-p um brank claro – assobia. E o som, q dv ser melodik, rasga-m o ouvid. Tnh a impressão d q tou a ser vaiad.
-Sent-s mal? – prgnt alguém,aop ver-m inquiet.
-É d ar belik q s respira, pouco salubr…
-Tem d ser… Foi horrivel, acrdite!
E n m contenh. Despej finlment o saco:
-Acredit. Mas fik n minha. Numa moral primitiv, o vencedor destrói o vencid. Dcapta-o, squartja-o, dvora-o.E bárbaro, e intolravel, mas e a sua logik grreir. Sb-se lá q remots implikçoes rituais, ou msm religiosas, estão pr dtras desses excessos” O q em terms d cultura ocidntal é uma aberração q brad aos céus, p ele pd ser 1 afirmçao étnica e étik.Nos é q, c o tmp e o vagar ds sec’s, n lh soubems kmunikar outrs valors q na guerra fossem tão invioláveis km n paz. N sua exemplridd tragik, ops masscrs foram o sinal eloquent d nossa falência civilizadora.

[p 35-36] [MA]

A voar p Lisboa, 12 Junh 1973

BRV ADEUS

E um adeus q t dig n1 poema,
Continnt slar
Grnd e fremnt coração d terr!
É 1 adeus d poet atriblad,
Q ds lngs d Hist
E n carn ds seus
Veio vr a negrura
D 1 pesadl.
É 1 adeus q, ao dez-lo,
S coalh ns olhs marjads,
E dói tnt
Q n pd ter versos dmorads
Que n pd durar alem d prant.


[p 37] [MA]

Cbr, 13 Junh 1973

D Lisboa a Coimbr n kmboio, a ouvir flr prtgues escorreit, a rspirar a frescura ribatjana, a sntir a doçura estremenha, e, finalmnt, a reencontrar a magia ds kmps d Mndeg, quas q chorei d emoção. Nunk cuidei q Prtgal foxe tão harmnioso, tão bel, tão aklhdor, tão hman. Dps d agressividd afrikn, a Eurp pareceu-me paradisiaka, mansa, d regaç.
[p 38] [MA]

VERSÃO ORIGINAL

De Lisboa a Coimbra no comboio, a ouvir falar português escorreito, a respirar a frescura ribatejana, a sentir a doçura estremenha, e, finalmente, a reencontrar a magia dos campos do Mondego, quase que chorei de emoção. Nunca cuidei que Portugal fosse tão harmonioso, tão belo, tão acolhedor, tão humano. Depois da agressividade africana, a Europa pareceu-me paradisíaca, mansa, de regaço.

Cbr,14 Junh 1973

Continuo numa espécie d sonamblism, maravilhd diant d kd arvore, d kd pássaro, d kd flor, d kd mulher vstida e perfumd. Os sentids km q convaslecem ds violências sofrids. Numa snsaçao rkonfortant, reenkontr pouk a pouk a medid familiar ds coisas familiars, o ritm d respirçao e d sang. Km as distancias são curts e n e necessário utlizr o avião, entr ns trnsports ronceirs d coração sossegd, e kd pqeno traject sab-m pla vid. Vo vend casas, caras conhcids, monumnts, pombs, jrdins.E td esta cert dntr d mim, arrmad n seu compartimnt emtivo ou sensorial. Sou msm 1 homem civlzd. N parec, mas sou.
[p 38] [MA]

Cbr, 20 Jnh 1973

REGRSS

Qnt + lng vo, + pert fik
D ti, berç infliz ond nasci.
Td o q tnh, o tnh aq
Plantd.
O coração e os pés, e as hrs q vivi,
Aind n sei s livr ou cndnad.

[p 39] [MA]

Carvoeir, 4 Julh 1973

N paro. As largs clareirs d silencio, q parcem intervls d sdntariedd ns meus dias, são apnas pssds q est diário n regist. N meu sang há 1 ancestralidd nomad pl – tão vigoroso km a atracção ds pols ntiv e adoptiv a q regress smp.E uma ncssidd d camnhr, d dvorar léguas, d knhcer terrs, d perspctivr o mund d tds os anguls. Sinto-m bem a contemplr paisagns nvs, a ouvir sotaqs estrnhs, a visitar monmnts ignorads. Tnh a imprssao d ficar + dntr d pele, + d acordo cmg, + snhr ds mnhs certzas. E km s cd horiznt, ond sou estrnh, m dvolvess inteir, dspjd d tds as inevitáveis conivências q o habito ns tece, virginlmnt cpaz d arriscar, sobr o q vej,juizs tão temerários e irrprimiveis km declarações d amor.
[p 40] [MA]

Carvoeir, 5 Julh 1973

Cheg ao fim d vid sem sbr ler correctament à 1 vista o + simples trech d livr d natureza. Abr-s 1 panorama diant d mim e o + q consig imdiatmnt e solatra-lo. So dps d mts tntativs e q os olhos s hablitam a dslizr pr el s tropçar- Tlvz pq entrtnt entrou em cena um outr pdr d apreensão: a forç impriosa d palavr.1 poeta viv em dsqilibrio enquant a magia d letr n d cobrtura a lição ds sntids. E a optik d poema q orgniz a paleta ds percpçoes. Pr iss, apens qnd comç a cantr cmç a entendr. Dai, crtmnt, ess mnh lnt aprndizagm visual, e tb o fct d nnhum paisag m knsr. Nunk knsg esgta-la. O espnt rnasc kd x q 1 nv vers lh rvela 1 nv aparência…
[p 40-41] [MA]

Carvoeir, 7 Julh 1973

Rond pr estas aldeias turistiks, invj pixins prvds, espreit jrdns vddds, leio noms estrangeirs a entrd ds vvnds + aptcids, mas concluo c alivio q , afinal, os invsores n tomaram knt dst prcel d pátria,km certmnt mts julgam e eu temia. E em kmnhao c os seus morts,cerkds pl msm frnteir, q a comunidd ds vivs legitima a posse d território q pvoa. E qnts ds q vieram expndir a mocidd ou aquecr a velhice ao nss sol vão clbrar a 1 cemiterio lks o dia d finads?
[p 41] [MA]

Carvoeir, 20 Julh 1973

ALGARV

Lv-t emoldrd n retina,
Terr q Prtgal sonhou e sonh aind,
Q imgina dps d o conhcer,
S n retin pdrei reter
Um mar q é outr mar
1 sol q e outro sol
Gnt q e outr gnt
E ksas q parecem d rpent
Albornzes d pedr.
Magia nturais km a paisagm
Abert a luz d dia
Smp real e smp 1 miragem
Táctil e fugidia…


[p 42] [MA]

Cbr, 12 Agst 1973

O dia inteir a tntr fgir d mim n litoral estremenh. Prt ds Brks, Areia BRnk, Penixe, Baleal…Ms o calendário, q eu dsjv bnir d lmbrnç, parecia esknkrd em cd miradoir. Lugars outror visitds e dscrits, então d rost juvnil, apareciam-m agr enrugds, gsts, encancidos. Em x d caleidoskopios d recriação, eram espelhos d reflezao. Hj n pderia + eskrver dls e nls o msm q escrevi há trint ans. Bem sei q a dsgrç e univrsal. O mund parec prostituid. Ns terrs estrngeirs pr ond m perdi n passad e m perc qnd poss n presnt, acontec outr tnt. O antig recat em q viviam foi igualmnt dvssd, e pouk d singlaridd, purez e especifik enknt lhs rest e as disting d comum. Ms a cois, hj e aqui, doeu-m particularmnt. 1º,pr ser n dia em q era; 2, pq, qnt + pert d coração, ´sangr a fkd. Vilão n seu baldio, a paisgm dmestik, dvolvia-m a img pttik d’uma velhic tb dmestik e apavrnt: a d bnlizçao.
[p 43] [MA]

Aveir, 14 d Agst d 1973

O q pd o inconscient colectiv! NUnk aqui vnh, sj qual for o mtv q m trg, q 1 forç pdrosa m n coaja intimmnt. S querer, sint-m ciddao. Parece q caminh ns ruas c tds os direits e obrigações as costs.
[p 43-44] [MA]